22.10.26

Gestalt como Técnica de Manipulação


Traduzido na maioria das vezes para o português como “forma”, Gestalt é uma teoria descritiva simples, fácil de entender, consistindo basicamente na premissa de que o todo é sempre diferente da soma de suas partes [o que não quer dizer absolutamente nada], que é uma maneira simplista de tentar resumi-la. Dentre seus fundamentos, interessa, por ora, entender o fechamento, que não acontece apenas visualmente, mas mentalmente, independentemente das expressões realizadas, observadas desde pensamentos verbalizados até composições musicais.

Imagine que alguém esteja contando (1, 2, 3, 4, 5, 6...) em um determinado ritmo, e, ao mesmo tempo, batendo palmas para cada contagem. Curiosamente, se esta pessoa para de falar os números, porém, mantendo as batidas, aquela que escuta tende a continuar a contagem mentalmente, mesmo que por um curto espaço de tempo. Não raramente é possível ouvir ao menos o início de uma determinada música conhecida só de assistir os primeiros dois ou três segundos de um clip, ainda que o aparelho de televisão esteja no mudo. Contudo, isto não ocorre em um estado de alerta, de vigilância constante, sobre quando efeitos como estes podem acontecer. Ao contrário, sempre podem acontecer para quem se encontra passível à sugestionamentos.

A indução por fechamento

Aqueles que são sugestionáveis, primordialmente, dependendo de como as técnicas de manipulação vão ser utilizadas, conforme apresentadas brevemente no texto Manipular Pessoas e Grupos, sofrem com mais facilidade por ações que se baseiam no fechamento, que é um dos fundamentos da Gestalt [utilizado por manipuladores, ainda não entendam a técnica por trás — algo instintivo, de mentes egoicas que observam o outro como uma oportunidade ao invés de seu semelhante]. Observe as três composições posicionadas abaixo antes de prosseguir a leitura, pois o que acontece através de aspectos visuais, também existe no campo verbal.



O mais importante é perceber que, excluindo-se a primeira composição, as outras duas se baseiam em omissões geometricamente produzidas nos círculos. Enquanto na imagem mais à esquerda é possível notar círculos completos, conectados por linhas espessas, mas não um triângulo ali no centro, nas outras duas esse triângulo passa a existir, tanto como plano, quanto por linha, embora tecnicamente, como unidades vetoriais, não tenha sido jamais feitas. Significa que seu cérebro fez esse fechamento, completando na sua mente algo que fica até difícil de não ver. Concentrando-se apenas na composição do centro e olhando apenas para um dos círculos (use a mão para cobrir os demais), certamente um gráfico em formato de pizza termina sendo a imagem mais próxima à percepção [ou o Pac-Man de boca aberta]. Contudo, para evitar esse fenômeno mental automático, foi preciso realizar esse isolamento, afastando sua parte para que o todo não pudesse mais fechar uma outra figura que simplesmente só existe quando associada aos outros elementos, naquelas disposições.

Sobre a primeira composição, há quem consiga enxergar algo mais tridimensional, embora tecnicamente seja apenas uma imagem formada por três círculos e linhas diagonais e horizontal [na verdade, é o mesmo triângulo das outras composições, mas sobreposto em forma de linha espessa, com a mesma cor dos outros elementos — já está manipulando as pessoas com descrições rebuscadas, cara?], sendo considerado algo meramente bidimensional. Entretanto, alterando mais uma vez estes círculos, tanto é possível facilitar a percepção tridimensional em algo bidimensional, como criar outras maneiras de fazer um triângulo inexistente aparecer à vista do observador através do fundamento do fechamento, conforme a teoria da Gestalt.


A primeira composição deixa de ser bidimensional para algo tridimensional apenas pela inclusão de sombras nos círculos e a interrupção do fluxo nas linhas, causando a impressão de que estão parte por trás, parte encaixadas naqueles. Veja que as sombras de fato existem e que o cérebro não capta algo por fechamento. A segunda imagem, apesar da menor pregnância, que é outro fundamento da Gestalt, aqui simplificada para capacidade de percepção da forma, ainda revela um triângulo pela mesma interrupção de fluxo nas linhas dos círculos, incluindo-se, porém, no centro de cada um, um ponto de mesma cor para forçar o cérebro à percepção das pontas do triângulo — por causa do fechamento. A terceira imagem, cujas linhas tracejadas foram colocadas apenas para referenciar a origem das formas em vermelho, também revela um triangulo, sendo o resultado de um fechamento dado por “fatias de pizza” com bordas em oposição ao centro. Neste caso, quanto mais juntas estiverem essas três formas, mais um triângulo poderá ser mais facilmente formado na mente pelo cérebro estar captando, por fechamento, esta forma geral, motivo pelo qual se diz que o todo não é necessariamente a junção de suas partes.

Fechamento dado por falsa informação

Considere a partir daqui que somente a imagem central, daquelas primeiras composições, onde o triangulo surge a partir do fechamento dado por três círculos iguais em circunferência. Admita que cada um desses círculos idênticos seja uma informação válida à realidade de algo que é revelado por fechamento. Diante dos exemplos abaixo, o triângulo ocasionado por fechamento continua existindo, mas as formas que geram este fenômenos não são as mesmas [o princípio por trás de toda indução, para sem mais exato, o que os manipuladores, consciente ou inconscientemente sempre buscam fazer contra seus alvos], e devem ser consideradas como informação verossimilhante, pois, apesar de contribuir ao fechamento da forma do triângulo, fazendo com que pareça legítimo àquela composição, trata-se de algo anômalo, não condizente com a verdade em um universo formado por círculos iguais.


Embora cada composição continue revelando triângulos de idênticas medidas, nenhuma pode ser considerada legítima, verdadeira ou mesmo real, dado que ao menos uma forma não corresponde à realidade daquilo que foi determinado como sendo próprio somente na presença de três círculos idênticos. Apesar do primeiro conjunto haver um círculo menor, de no segundo conjunto o círculo ser substituído por um quadrado, e, de no terceiro conjunto haver um círculo formado por linhas, o triângulo revelado ao centro continua persistindo.

Tome o triângulo, originado no fechamento da composição central da imagem acima, como expressão da realidade sobre algo, que pode ser informacional, como um conceito. Para aqueles que conhecem sua estrutura conceitual, eles entendem que ela é dada pelo conjunto de três círculos idênticos, porém, ajustados de tal forma que consiga revelar o triângulo, como é uma tríade, cuja definição é relativa a algo originado a partir de três coisas ao invés de duas ou quatro, mas que sua qualidade pode ser determinada mais especificamente, como é o caso da designação dos três círculos idênticos. Quem não conhece o conceito, mas vendo que a imagem gerada é o mesmo triângulo, irá supor estar diante de uma verdade conceitual, incluindo suas definições (que deveriam ser dadas apenas pelos círculos idênticos, exclusivamente), admitindo a forma anômala, o quadrado, como parte de um todo legítimo, autêntico, embora não seja.

Significa dizer que se uma pessoa só possui duas partes de três para formar um todo, precisaria encontrar essa outra parte para que esse todo finalmente fosse concluído de maneira autêntica. Os manipuladores se aproveitam justamente desse processo para incutir na percepção de um alvo algo que não participa da verdade, mas que, por verossimilhança, termina sendo aceito — e o triângulo gerado graficamente por fechamento naquela composição serve para representar essa capacidade latente de a mente perceber como certo um dado cerebral equívoco.

Se um círculo significa que somente os seres humanos são dotados de racionalidade, e o outro círculo quer dizer que entre seres humanos só existem homens e mulheres, um quadrado, na condição de dado anômalo, que propõe que ambos, homens e mulheres, por terem basicamente a mesma composição corporal, podem optar por serem do sexo oposto, termina contribuindo para a percepção equivocada de um conceito, dado pelo fechamento do triângulo. Forma que se revela incoerente, pois se os seres humanos são dotados de racionalidade, e a alternância de sexo se daria de modo apenas estético, uma vez que as bases cromossomiais continuariam as mesmas (XY para homens e XX para mulheres), entre outros fatores, somente duas hipóteses prevalecem nessa questão: ou a verdade prevalece, de que só existem homens e mulheres entre seres humanos, ou a manipulação do conceito, dado pela subversão de um dado, acaba se tornando narrativa de interesse do manipulador [e o espertalhão, o manipulador, acha que isso não pode ser matematizado e provado, como de fato é através da semiótica e o domínio da Gestalt], fazendo com que homens e mulheres sejam elementos sem propriedade e a humanidade um conceito relativista [o que é necessário para os intentos eugenistas e sanitaristas de controle populacional].

A manipulação não é imbatível

Manipular é mentir [isto deveria ser óbvio, mas não é]. Porém, como a mentira se tornou um modelo de negócio, o controle de narrativa virou seu principal produto, o ativo principal de um empreendimento manipulador, que se vale da subversão para adulterar as estruturas da própria realidade através de conceitos forjados, como ferramentas, para que sejam empregadas nas manipulações. Somente o conhecimento integral a respeito de um assunto pode impedir atos manipulativos de serem empregados contra si ou demais pessoas. Além disso, á maioria dos manipuladores [que não são inteligentes, diga-se de passagem] desconhecem os mecanismos por trás desses processamentos gestaltificantes. Quando se veem necessitados de impor suas vontades, simplesmente inventam, vão testando narrativas, até que algum alvo seja atingido (sugestionado, na verdade). Os mais vulneráveis são sempre aqueles com menor poder informacional, variando em termos de menor condição social, mas, sobretudo, de acordo com a faixa-etária: quanto mais novos e inexperientes, mais suscetíveis às manipulações de um modo geral [lembrando que doutrinações são cada vez mais frequentes em escolas do que nunca, especialmente à propagação de subversões, travestidas de pensamentos revolucionários, para condicionar crianças e jovens as narrativas que mais favoreçam aos manipuladores e suas ideologias]. A manipulação não é imbatível, mas, diferentemente das soluções criticadas no texto Subjetivar é Manipular, é preciso conhecer como de fato ela acontece de um modo geral. Aquilo que acontece com um, sendo alvo de um manipulador ou de uma manipulação (ideológica, seitista, religiosa etc.), não necessariamente acontece com outro, mesmo que ambos estejam um grupo propício à isso, nuances podem acontecer a depender do grau de sugestionamento de um e de outro. Entender as estruturas bases da manipulação é a única maneira de evitar as implantações emocionais, isolamentos provocados e controles de narrativas.
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